1 comentário(s)

Avalie este texto Muito Ruim Ruim Regular Bom Muito Bom Avaliações: 367
8/9/2008
Juros altos na economia, vendas baixas no mercado

Pequenas e médias empresas também são afetadas por decisões de juros do Banco Central

Muitas vezes não damos a devida importância a decisões que são tomadas pelo Governo Federal e pelo Banco Central, principalmente àquelas que se referem à política monetária. Imaginamos que é algo distante e que não deverá afetar nossos negócios e, muito menos, nossas vendas.

Segundo Carlos Roberto Passos e Otto Nogami, em seu livro “Fundamentos de Economia” (p. 416-417 da edição de 1994), o conceito de política monetária pode ser definido da seguinte forma:

“A política monetária pode ser definida como sendo o conjunto de medidas adotadas pelo Governo com o objetivo de controlar a oferta de moeda e as taxas de juros, de forma a assegurar a liquidez ideal da economia de um país.

A execução da política monetária, em última instância, tem como objetivo, através do controle de oferta de moeda, a elevação do nível de emprego, a estabilidade de preços, uma taxa de câmbio realista e uma adequada taxa de crescimento econômico.”

Portanto, o Banco Central (BC), por ser o executor da política monetária, toma decisões que afetarão a demanda e a oferta de produtos e serviços na economia, além de diversas outras funções, que não abordaremos aqui. Uma das principais atribuições do BC é fixar a taxa básica da economia, chamada de taxa SELIC, que será explicada mais adiante.

No Brasil, o BC vem atuando excessivamente de forma conservadora desde o governo Fernando Henrique Cardoso (FHC), continuando com sua política ortodoxa nos dois mandatos do presidente Lula. O maior impacto desta política é sentido principalmente na taxa de crescimento da economia, que ficou abaixo da média do crescimento internacional em grande parte do governo dos dois presidentes. Um dos principais motivos do baixo desempenho é a alta taxa de juros da economia brasileira.

SELIC

SELIC (Sistema Especial de Liquidação e de Custódia) é um sistema eletrônico que custodia os títulos do Governo, assim como realiza as operações de liquidação destes títulos. Participam do SELIC as instituições financeiras, como bancos, caixas econômicas e o próprio BC. A taxa SELIC, por sua vez, é a taxa média diária apurada neste sistema (Leia também o conceito do BC).

Ou seja, quando há a venda de um título público por parte do Governo, a taxa SELIC é usada como remuneração das instituições financeiras. Sua afixação ocorre de tempos em tempos nas reuniões do Comitê de Política Monetária (COPOM), do qual participam o presidente do BC e sua diretoria.

A taxa SELIC é considerada como a taxa básica da economia porque é referência para os bancos e as demais instituições financeiras. Eles a utilizam em empréstimos interbancários e compõem suas demais taxas de juros a partir dela (como as de empréstimos para PF e PJ, cheque especial, entre outros).

Portanto, quando o BC decide aumentar a taxa SELIC em suas reuniões do COPOM, ele estará afetando todo o funcionamento da economia, fazendo com que o crédito fique mais caro. Como conseqüência, a demanda por produtos e serviços tende a cair, fazendo com que a inflação, mas também o crescimento econômico, sejam menores. Além disso, impacta também a decisão de investimento (máquinas, fábricas, lojas). Em outras palavras, os investidores serão desestimulados a abrir novos negócios ou a expandi-los não somente pelo fato das taxas de juros de empréstimos ficarem mais elevadas, mas também porque o percentual de retorno do empreendimento poderá ficar menor do que o de uma aplicação no banco.

O campeão mundial da taxa de juros real

Como falamos, a taxa de juros brasileira é muito alta, mas para poder compará-la com as demais economias do mundo, utiliza-se o conceito de taxa de juros real, que nada mais é que a taxa de juros nominal descontando-se a inflação.

Sendo assim, não adianta só analisar o valor estipulado pelo BC após a reunião do COPOM, que poderá ser de 11%, 12% ou 13%, por exemplo. O importante será considerar o valor real e, mais importante ainda, será compará-lo com outros países.

Segundo a UpTrend Consultoria Econômica, a taxa de juros real do Brasil em julho de 2008 era a maior do mundo com uma diferença grande para o segundo colocado:

Rank

País

Taxa de Juros Real

Brasil

7,2%

Austrália

5,7%

Turquia

5,3%

México

2,7%

Colômbia

2,2%

 

Analisando a tabela acima, pode-se perceber que a taxa brasileira é 25% mais alta do que a da Austrália, que está na segunda colocação e quase o triplo da mexicana, que está em quarto lugar!

Implicações dos juros altos

Existem diversas implicações para uma política monetária mais conservadora e ortodoxa, como foi comentado anteriormente de forma resumida. É importante conhecê-las para saber quais impactos serão sentidos por pequenas empresas:

- Combate a inflação: ao se aumentar a taxa de juros, o objetivo do BC é diminuir a taxa de inflação, uma vez que o consumo é desestimulado quando o crédito fica mais caro. Porém, esta estratégia somente é eficaz quando a inflação é causada por um aumento na demanda e não quando é causada por choques externos. Portanto, quando ocorre uma elevação nos preços internacionais de commodities (como petróleo e soja, por exemplo), a elevação da taxa de juros não conseguirá conter uma escalada dos preços. Neste caso, outras medidas como redução dos gastos públicos, dos impostos ou de tarifas de importação poderão ser mais eficazes.

- Câmbio: a cotação do real frente às outras moedas, principalmente o dólar e o euro, será afetada também pela taxa SELIC. Como vimos anteriormente, o Brasil lidera com folga o ranking dos juros reais e, por este motivo, é mais interessante para um investidor estrangeiro aplicar em fundos brasileiros do que em outros lugares, já que seu rendimento será mais alto. Por este motivo, a entrada de dólares será maior do que a saída. Esta situação faz com que o real se valorize diante do dólar (veja quadro explicativo a seguir), o que prejudica as exportações e estimula as importações, já que o custo das mercadorias brasileiras fica mais caro em dólar e o dos produtos estrangeiros, mais barato. O objetivo do BC deve ser o de manter uma taxa de câmbio que seja competitiva internacionalmente para estimular o crescimento econômico.

Taxa de câmbio: desvalorização e valorização

Quando há uma entrada elevada de dólares na economia, isto quer dizer que existe uma grande quantidade de pessoas querendo comprar reais e vender dólares, fazendo com que a moeda brasileira se valorize. Para entender melhor, imaginemos que a taxa de câmbio fosse de R$ 2,00 para cada USD$ 1,00. Com o aumento da quantidade de dólares no mercado, ficará difícil encontrar pessoas que queiram vender reais por esta taxa, já que a demanda pela moeda brasileira superará a sua oferta. Portanto, ela sofrerá valorização, podendo chegar a R$ 1,50, por exemplo, “pagando menos” por cada dólar. O inverso também é verdadeiro quando há fuga de dólares do país e os investidores precisam rapidamente vender reais e comprar dólares, fazendo com que a moeda brasileira se desvalorize.

 

- Crescimento econômico: a taxa de juros impacta a demanda por produtos e serviços porque encarece o crédito tanto para pessoas físicas quanto para pessoas jurídicas. No caso dos consumidores, a demanda é desestimulada e, no caso das empresas, os investimentos ficam com um retorno menor. A conseqüência é um nível de crescimento econômico mais baixo, o que, no limite pode causar estagnação e desemprego.

Em suma, é bastante importante acompanhar os rumos da política monetária brasileira tomados pelo BC e pelo Governo. Suas decisões impactarão o nível de crescimento da economia (demanda, emprego e investimentos), a taxa de câmbio e a inflação, o que é extremamente relevante para pequenas e médias empresas. Infelizmente, o que vemos no Brasil é uma preocupação exagerada e quase exclusiva com o combate da inflação em detrimento dos demais objetivos econômicos, como o pleno emprego, crescimento econômico e taxa de câmbio competitiva.

Sobre o Autor

 

Antonio Pedro Alves é formado em administração pela FGV, com MBA em Marketing pela FIA-USP, além de diversas especializações, inclusive na HEC, na França. Atuou em diversas multinacionais, tanto na indústria quanto no varejo, entre elas o Grupo Pão de Açúcar, Wal-Mart e Reckitt Benckiser. É executivo de marketing, palestrante e editor-chefe do Venda Muito Mais.




Comentários sobre este Artigo/Caso
8/9/2008 | Lucro
Juros sem mistério
Comente este Artigo

Veja todos os comentários

A responsabilidade pelos comentários é única e exclusiva dos respectivos autores.


Assine nosso feed de RSS
Adicione ao Google Delicious Adicione ao My Yahoo!
AddThis Feed Button
O que é RSS?
Pesquise no site
Escreva um Artigo

Últimos Artigos de Lucro

7/3/2009 | Lucro
Decisão de investimento, o que usar: TIR, payback ou VPL?

17/11/2008 | Lucro
Como transformar uma crise global em oportunidade local: o limão virando um delicioso sorvete

29/9/2008 | Lucro
Organização da gôndola aumenta a lucratividade

8/9/2008 | Lucro
Juros altos na economia, vendas baixas no mercado

12/8/2008 | Lucro
Fazer cross-merchandising pela loja é bom negócio

16/7/2008 | Lucro
Check-out é uma ótima área para aumentar a lucratividade
Veja todos Artigos de
Lucro

  Entrada | Blog | Seu Caso | Indique | Sobre | Contato | Termos e Condições de Uso
Copyright © 2008 vendamuitomais.com - Todos os direitos reservados.